Efeito Mozart: a música clássica torna-nos mais inteligentes?
O efeito Mozart é a ideia de que ouvir Mozart torna as pessoas mais inteligentes — e é um mito. O estudo de 1993 que lhe deu origem encontrou apenas uma melhoria breve, de 10 a 15 minutos, num tipo de tarefa espacial, e a investigação seguinte não encontrou nenhum efeito duradouro no QI. Quando a experiência é repetida, o pequeno ganho aparece depois de qualquer música ou história de que a pessoa goste, porque vem do humor e do estado de alerta, não de Mozart.
O que o estudo de 1993 mostrou de facto
Em outubro de 1993, Frances Rauscher, Gordon Shaw e Catherine Ky, da Universidade da Califórnia em Irvine, publicaram uma carta de uma página na Nature. Trinta e seis estudantes ouviram durante dez minutos a Sonata para dois pianos em ré maior de Mozart (K. 448), uma gravação de relaxamento ou silêncio, e depois fizeram tarefas espaciais, como prever o desenho de uma folha dobrada e recortada depois de aberta. A seguir a Mozart, as pontuações espaciais equivaliam a mais 8 ou 9 pontos numa escala de QI — mas só durante 10 a 15 minutos e num único tipo de tarefa.
Mozart para bebés
Em Portugal, “mozart para bebés” é pesquisado cerca de 110 vezes por mês, quase quatro vezes mais do que “efeito Mozart”. A ligação aos bebés nasceu na imprensa, não no laboratório: um estudo de 2004 sobre a cobertura mediática mostrou que o conteúdo do efeito Mozart foi mudando à medida que se espalhava, até os 36 universitários se tornarem bebés. Em 1998, o governador do estado norte-americano da Geórgia chegou a propor um CD de música clássica para cada recém-nascido. Nenhum estudo mostrou que essa música torne um bebé mais inteligente.
O que mostraram as repetições
Em 1999, Christopher Chabris reuniu na Nature os estudos disponíveis e concluiu que qualquer melhoria é pequena e não reflete uma mudança no QI; na mesma edição, outra equipa não conseguiu reproduzir o efeito. Em 2010, uma meta-análise da Universidade de Viena (cerca de 40 estudos, mais de 3000 participantes) não encontrou ganhos espaciais próprios de Mozart, e os estudos do laboratório original mostravam efeitos muito maiores do que os restantes — sinal de enviesamento de publicação.
Em 2001, a sonata enérgica de Mozart foi comparada com um adágio lento e triste de Albinoni: só Mozart melhorou as pontuações, e o efeito desapareceu quando o prazer, a ativação e o humor foram mantidos constantes na análise. Em 1999, Schubert produziu o mesmo ganho, e perante um conto de Stephen King a vantagem da música desapareceu. Fazer algo de que se gosta antes de uma tarefa pode dar alguns minutos de maior atenção; não muda o raciocínio espacial nem o QI.
Ouvir música não é aprender música
Aprender um instrumento é outra questão. Em 2004, 144 crianças de seis anos foram sorteadas para aulas de teclado, canto, teatro ou nenhuma, e os grupos de música ganharam um pouco mais de QI. Mas uma meta-análise de 2020 com 54 estudos (6984 participantes) concluiu que, nos estudos com sorteio e grupo de controlo ativo, o efeito é praticamente nulo. Veja também é possível aumentar o QI? e o artigo sobre treino cerebral.
Efeito Mozart e epilepsia
Uma meta-análise de 2023 sobre a sonata K. 448 na epilepsia encontrou apenas 8 estudos adequados, com 207 participantes, efeitos pequenos e não significativos e pouca potência estatística. Esta página é informação geral; quem tem epilepsia deve seguir a orientação do seu médico.
Porque é que o mito persiste
O efeito Mozart tem a mesma forma que os mitos do cérebro esquerdo e direito e dos estilos de aprendizagem: um resultado real mas estreito, uma revista famosa e a promessa de que algo fácil nos torna mais inteligentes. A pergunta certa é: o que foi medido, em quem e durante quanto tempo?
Sobre esta página
O QI reflete capacidades estáveis que não mudam com alguns minutos de música. O teste do IQ Revealed é um teste online de raciocínio com 40 itens próprios, para adultos a partir dos 18 anos, e não uma avaliação clínica; veja como funcionam os testes de QI. O IQ Revealed não tem ligação à Universidade da Califórnia, à Universidade de Viena, aos autores e editores do livro e dos CD “The Mozart Effect” nem aos investigadores citados; os nomes servem apenas para identificar as investigações e os produtos descritos.
Perguntas frequentes sobre o efeito Mozart
O que é o efeito Mozart?
É a ideia popular de que ouvir Mozart, ou música clássica em geral, torna as pessoas mais inteligentes. Vem de um estudo publicado na Nature em 1993: estudantes universitários resolveram melhor exercícios de dobrar e recortar papel durante cerca de 10 a 15 minutos depois de ouvirem dez minutos de uma sonata de Mozart. A inteligência geral não foi medida.
O efeito Mozart é verdadeiro?
Não da forma como é contado. Uma meta-análise da Universidade de Viena com cerca de 40 estudos e mais de 3000 participantes não encontrou ganhos espaciais próprios da música de Mozart. O que se repete é uma melhoria pequena e passageira depois de qualquer música ou história de que a pessoa goste, por efeito do humor e do estado de alerta.
Pôr Mozart para bebés torna-os mais inteligentes?
Não há provas disso. O estudo original foi feito com 36 estudantes universitários, não com bebés, e nenhuma investigação mostrou que a música clássica ouvida por bebés ou durante a gravidez aumente a inteligência mais tarde.
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