Survivorship bias: o viés de sobrevivência
Survivorship bias, ou viés de sobrevivência, é o erro de julgar um grupo inteiro apenas pelos membros que passaram por algum filtro, enquanto os que falharam ficam fora de vista. As empresas que continuam abertas, os fundos que ainda existem e os estudos que foram publicados parecem melhores do que o conjunto de onde saíram. É uma forma de viés de seleção que funciona como os vieses cognitivos: a evidência à nossa frente parece completa, mas não é.
Os aviões da Segunda Guerra: o que Abraham Wald fez de fato
Abraham Wald nasceu em 1902 em Kolozsvár (hoje Cluj-Napoca, na Romênia), doutorou-se em matemática em Viena e emigrou para os Estados Unidos em 1938. Na guerra, trabalhou no Statistical Research Group da Universidade Columbia, um grupo de estatísticos que resolvia problemas para as forças armadas americanas.
Wald criou um método para estimar, a partir dos danos nos aviões que voltavam, a probabilidade de um tiro em cada parte derrubar o avião. A lógica: aviões atingidos em pontos fatais não voltam para ser contados, então as áreas quase sem furos nos sobreviventes podem ser exatamente as que precisam de proteção. Segundo Marc Mangel e Francisco Samaniego (1984), os memorandos foram usados na Segunda Guerra e depois na Coreia e no Vietnã.
A versão popular — oficiais querem blindar onde há mais furos e Wald manda blindar onde não há nenhum — é uma simplificação de trabalho técnico, e o desenho do bombardeiro coberto de pontos vermelhos é uma ilustração moderna, não uma figura de Wald. A lição, porém, continua válida: a informação está nos aviões que não voltaram.
Exemplos de viés de sobrevivência
- Empreendedorismo no Brasil. Segundo o IBGE, seis em cada dez empresas abertas em 2012 encerraram as atividades em cinco anos. Histórias de quem largou tudo e deu certo são visíveis; a maioria que tentou e fechou, não.
- Fundos de investimento. Fundos que fecham ou são incorporados costumam ser os de pior desempenho. Edwin Elton, Martin Gruber e Christopher Blake (1996) acompanharam todos os fundos americanos existentes no fim de 1976 para medir o viés, e Burton Malkiel (1995) concluiu que ele era maior do que estudos anteriores estimavam.
- Pesquisa publicada. Robert Rosenthal chamou de “problema da gaveta” (1979): se estudos sem resultado significativo não são publicados, as revistas guardam uma amostra enviesada da pesquisa feita.
- “Antigamente se fazia melhor.” As casas e os móveis antigos que restaram são os que foram feitos para durar; os frágeis já foram para o lixo.
Por que o erro é tão fácil
Os sobreviventes são o que vemos e o que vira notícia. Por isso o viés de sobrevivência é parente próximo da heurística da disponibilidade, e o viés retrospectivo faz o caminho de quem venceu parecer inevitável. Listas de hábitos de gênios ou de rotinas de estudo dos melhores alunos são amostras de sobreviventes: sem quem teve os mesmos hábitos e não chegou lá, não provam nada. O mesmo cuidado vale para promessas de aumentar o QI.
Como evitar
- Conte todos que começaram, não só quem chegou ao fim.
- Pergunte para onde foram os fracassos e por quê.
- Compare sobreviventes e não sobreviventes no fator que importa.
- Desconfie de conselhos tirados só dos vencedores.
Veja também viés de confirmação e pensamento crítico.
Sobre esta página
Esta página resume pesquisas publicadas e estatísticas oficiais como informação geral; não é aconselhamento de investimento, negócios ou saúde. O teste do IQ Revealed é um teste online de raciocínio com 40 itens próprios para adultos a partir de 18 anos; ele não mede o viés de sobrevivência. Veja como funcionam os testes de QI. O IQ Revealed não tem vínculo com os pesquisadores, universidades, revistas, editoras ou órgãos de estatística citados; os nomes servem apenas para identificar os trabalhos. Fontes: Mangel & Samaniego (1984), Elton, Gruber & Blake (1996), Malkiel (1995), Rosenthal (1979) e IBGE, Demografia das Empresas.
Perguntas frequentes sobre o viés de sobrevivência
O que é survivorship bias (viés de sobrevivência)?
É o erro de tirar conclusões só a partir de quem passou por algum filtro — as empresas que continuam abertas, os fundos que ainda existem, os estudos que foram publicados — esquecendo quem ficou pelo caminho. Como os fracassos saem de vista, o que sobra parece mais bem-sucedido do que o grupo inteiro realmente foi.
Qual é a história dos aviões da Segunda Guerra?
O estatístico Abraham Wald, do Statistical Research Group da Universidade Columbia, desenvolveu um método para estimar a vulnerabilidade dos aviões a partir dos danos nos que voltavam. A ideia central: os furos nos aviões que retornaram mostram onde um avião pode ser atingido e ainda voltar; as áreas quase sem danos podem ser justamente as fatais. A versão que circula na internet simplifica memorandos técnicos, e o famoso desenho do bombardeiro com pontos vermelhos é uma ilustração moderna.
Quais são exemplos de viés de sobrevivência no Brasil?
O mais próximo do dia a dia é o empreendedorismo: segundo o IBGE, seis em cada dez empresas abertas em 2012 encerraram as atividades em cinco anos. Quem olha só para os casos de sucesso não vê esse quadro. O mesmo vale para fundos de investimento que fecham por mau desempenho e somem das comparações.
Viés de sobrevivência é um viés cognitivo?
Tecnicamente é um viés de seleção — um defeito nos dados que se olha. Vira erro de raciocínio quando tratamos os sobreviventes visíveis como se fossem o grupo todo, por isso costuma aparecer ao lado de vieses cognitivos como o viés retrospectivo e a heurística da disponibilidade.
Como evitar o viés de sobrevivência?
Pergunte o que está faltando nos dados e por quê. Encontre o grupo de partida completo — todas as empresas abertas, todos os fundos lançados, todos os estudos feitos — e compare quem sobreviveu com quem não sobreviveu no fator que interessa.
Como está o seu raciocínio?
Nosso teste de QI é gratuito para fazer e leva cerca de 25 minutos. O relatório completo — pontuação, percentil e desempenho por área — faz parte da assinatura.
Começar o teste de QI