Neuroplasticidade: o que é, como funciona e o que ela não faz

Neuroplasticidade — também chamada plasticidade neural ou plasticidade cerebral — é a capacidade do sistema nervoso de mudar sua atividade, sua estrutura e suas conexões em resposta à experiência, à aprendizagem ou a uma lesão. Ela é real e dura a vida inteira. Mas é muito mais específica do que a fama sugere: o cérebro muda onde é usado, e por isso treinar uma tarefa raramente melhora todas as outras.

O que é neuroplasticidade

A definição usada como referência clínica fala na capacidade do sistema nervoso de mudar sua atividade em resposta a estímulos internos ou externos, reorganizando sua estrutura, suas funções ou suas conexões. A ideia é antiga: William James escreveu sobre plasticidade do sistema nervoso em 1890, o neurofisiologista polonês Jerzy Konorski criou o termo plasticidade neural em 1948 e Donald Hebb o popularizou no ano seguinte.

Para quem chega ao tema pela escola ou pela pedagogia, o ponto central é este: plasticidade não é um modo especial que o cérebro liga de vez em quando. É o próprio mecanismo físico de toda aprendizagem — e funciona nos dois sentidos, enfraquecendo conexões pouco usadas tanto quanto fortalecendo as usadas.

Como funciona: os quatro mecanismos

MecanismoO que mudaGrau de evidência
Plasticidade sinápticaA força das conexões entre neurôniosBem estabelecida desde 1973
Mudança estruturalO volume de massa cinzenta em regiões muito usadasDemonstrada em adultos
Reorganização funcionalQuais áreas executam uma função, sobretudo após lesãoDemonstrada; mais eficaz na infância
Neurogênese adultaNovos neurônios no cérebro adultoControversa em humanos

A plasticidade sináptica é a base de tudo. Em 1973, Tim Bliss e o fisiologista norueguês Terje Lømo estimularam uma via nervosa do hipocampo de coelhos anestesiados e viram que a resposta das células receptoras continuava amplificada depois — em 15 de 18 animais, por períodos de 30 minutos a 10 horas. Era a potenciação de longa duração: uma conexão que fica mais forte porque foi usada. É o exemplo mais claro do «use ou perca» citado nos textos sobre aprendizagem.

A reorganização funcional aparece quando uma área é lesionada e outras assumem parte do seu trabalho. Depois de uma hemisferectomia — a retirada de um hemisfério cerebral, em geral por epilepsia grave na infância — exames de imagem mostram o hemisfério restante se reorganizando para recuperar funções.

Um exemplo de neuroplasticidade em adultos: os taxistas de Londres

Os taxistas de Londres precisam decorar o mapa inteiro da cidade para passar numa prova conhecida como «the Knowledge». Em 2000, Eleanor Maguire e colegas mostraram que a parte posterior do hipocampo — região ligada à memória espacial — era maior nesses motoristas do que em pessoas que não dirigiam táxi, e que o tamanho acompanhava os anos de profissão.

Como uma comparação num único momento não prova causa, Katherine Woollett e Maguire acompanharam candidatos durante os quatro anos de preparação. Quem foi aprovado apresentou aumento seletivo de massa cinzenta no hipocampo posterior; quem não foi aprovado e o grupo de controle não mostraram nenhuma mudança estrutural. Os autores descrevem os participantes como adultos de QI médio. Ou seja: um cérebro adulto comum se remodela com aprendizagem intensa e prolongada — na região que essa aprendizagem usa.

O cérebro adulto produz novos neurônios?

É a afirmação mais repetida e a menos resolvida.

  • A favor: em 1998, a equipe de Peter Eriksson, em Gotemburgo, relatou novos neurônios no hipocampo adulto. Em 2013, pesquisadores do Instituto Karolinska mediram o carbono-14 dos testes nucleares no DNA de neurônios e estimaram cerca de 700 novos neurônios por dia em cada hipocampo.
  • Contra: em 2018, Shawn Sorrells e colegas não detectaram neurônios jovens no hipocampo de adultos de 18 a 77 anos.
  • A favor de novo: no mesmo ano, a equipe de Maura Boldrini encontrou milhares de neurônios imaturos em pessoas de 14 a 79 anos, e em 2019 um grupo de Madri os encontrou em pessoas saudáveis até os 80 e poucos anos.

O impasse é sobretudo de método: os marcadores usados para identificar um neurônio novo também aparecem em células imaturas que não são recém-formadas. O resumo honesto é que a neurogênese adulta em humanos é possível, mas não está provada. Quem promete «criar novos neurônios» promete mais do que a pesquisa mostrou.

Qual a idade de maior plasticidade cerebral?

A primeira infância. Pierre Paul Broca já observava no século XIX que a fala voltava com mais facilidade depois de uma lesão em crianças do que em adultos. Mesmo a equipe que não encontrou neurônios novos em adultos os encontrou em bebês, em queda brusca durante o primeiro ano de vida. Na vida adulta a plasticidade continua — os taxistas provam isso —, mas exige mais repetição e é mais localizada.

Como estimular a neuroplasticidade: o que a evidência sustenta

Os conselhos que circulam — aprender um idioma, mudar o caminho para o trabalho, usar jogos cerebrais — partem de uma premissa verdadeira (o cérebro muda com novas exigências) e chegam a uma conclusão não comprovada (que essas novidades melhoram o pensamento em geral).

A revisão mais completa, de Daniel Simons e seis coautores (2016), examinou todos os estudos revisados por pares citados pelas principais empresas de treino cerebral. Encontrou muitas evidências de melhora nas tarefas treinadas, menos nas tarefas parecidas e poucas nas tarefas diferentes ou no desempenho do dia a dia. É exatamente o que os taxistas sugerem: a plasticidade constrói o circuito que a prática usa.

  • Treine a habilidade que você quer. O ganho se transfere mal; pratique o alvo, não um substituto.
  • Esforço e continuidade. As mudanças nos taxistas se acumularam em anos, e só em quem atingiu o padrão.
  • Cuide das condições. Exercício físico, fatores ambientais, repetição e motivação aparecem como influências positivas sobre a plasticidade sináptica. Elas ajudam a aprender; não substituem o aprender.

Neuroplasticidade e aprendizagem: o que muda no QI

O caso mais bem medido de «experiência que muda a inteligência» é a própria escola. Stuart Ritchie e Elliot Tucker-Drob reuniram 142 tamanhos de efeito de 42 bases de dados, com mais de 600 mil participantes, e estimaram que cada ano a mais de estudo eleva o QI em cerca de 1 a 5 pontos, com efeito que persiste ao longo da vida. A escola funciona onde o jogo não funciona porque são anos de prática exigente justamente nas habilidades que um teste de QI mede.

As formas práticas, e quanto cada uma vale, estão em como aumentar o QI segundo a evidência. A diferença entre as capacidades que respondem mais e menos ao estudo está em inteligência fluida e cristalizada, e o que um teste realmente mede, em como funcionam os testes de QI.

A neuroplasticidade é uma das raras ideias sobre o cérebro que são verdadeiras e ainda assim exageradas. As vizinhas se saem pior: a divisão entre pessoas de hemisfério esquerdo e direito e os estilos de aprendizagem falharam em testes diretos.

Escopo e limites

Este texto é informativo. Resume pesquisas publicadas sobre como o cérebro muda e não é orientação médica, diagnóstico nem plano de reabilitação. Quem se recupera de AVC ou lesão cerebral deve seguir a própria equipe de saúde. Nosso teste de QI não avalia a saúde do cérebro nem a plasticidade.

A IQ Revealed não é afiliada, endossada nem ligada à National Library of Medicine, ao Instituto Karolinska, à Universidade da Califórnia, ao Conselho Superior de Investigações Científicas da Espanha nem a qualquer universidade, periódico ou pesquisador citado nesta página. Eles são citados para que cada afirmação possa ser rastreada até o trabalho de origem: StatPearls (NCBI), Bliss e Lømo (1973), Maguire e colegas (2000), Woollett e Maguire (2011), Eriksson e colegas (1998), Spalding e colegas (2013), Sorrells e colegas (2018), Boldrini e colegas (2018), Simons e colegas (2016) e Ritchie e Tucker-Drob (2018).

Perguntas frequentes sobre neuroplasticidade

O que é neuroplasticidade, em palavras simples?

É a capacidade do cérebro de se modificar de acordo com o que acontece com ele. As conexões entre neurônios se fortalecem com o uso e enfraquecem sem ele, regiões muito usadas podem crescer e, depois de uma lesão, outras áreas podem assumir parte das funções perdidas. Neuroplasticidade, plasticidade neural e plasticidade cerebral são três nomes para a mesma coisa.

Qual a idade de maior plasticidade cerebral?

A primeira infância. A recuperação de funções depois de uma lesão cerebral é mais fácil em crianças do que em adultos — algo já observado no século XIX — e a produção de novos neurônios no hipocampo humano cai bruscamente durante o primeiro ano de vida. A plasticidade não desliga na vida adulta, mas fica mais lenta e mais localizada.

Jogos cerebrais aumentam a neuroplasticidade?

Eles deixam você melhor nos próprios jogos. A revisão mais completa do tema, de Simons e colegas (2016), analisou todos os estudos citados pelas principais empresas de treino cerebral e encontrou muitas evidências de melhora nas tarefas treinadas, menos em tarefas parecidas e poucas evidências de melhora em tarefas diferentes ou no desempenho cognitivo do dia a dia.

O cérebro adulto produz novos neurônios?

A questão está em aberto. Um estudo de 2013 que datou neurônios pelo carbono-14 dos testes nucleares estimou cerca de 700 novos neurônios por dia em cada hipocampo adulto. Em 2018, porém, uma equipe não encontrou nenhum neurônio jovem em hipocampos adultos, enquanto outra encontrou milhares em pessoas de 14 a 79 anos. A divergência depende de como se identifica um neurônio novo no tecido humano.

A neuroplasticidade pode aumentar o QI?

Toda aprendizagem duradoura depende dela, mas o que importa é qual experiência produz ganhos amplos o bastante para aparecer num teste de QI. A resposta mais sólida é a escolarização: uma meta-análise com mais de 600 mil participantes estimou que cada ano a mais de estudo eleva o QI em cerca de 1 a 5 pontos.

A neuroplasticidade é sempre boa?

Não. A plasticidade muda o cérebro na direção em que ele é empurrado. Depois de uma lesão, o resultado pode ser benéfico, neutro ou negativo; a forma negativa, chamada plasticidade mal-adaptativa, está ligada à dor crônica e à sensação de membro fantasma.

Quer medir o raciocínio em vez de adivinhar?

Nosso teste de QI é gratuito para fazer e leva cerca de 25 minutos. O relatório completo — pontuação, percentil e desempenho por área de raciocínio — faz parte da assinatura.

Começar o teste de QI