Funções executivas: o que são, as três principais e a relação com o QI

Funções executivas são os processos mentais de controle que você usa quando uma tarefa não pode rodar no automático: segurar uma informação na cabeça enquanto trabalha com ela, conter uma reação imediata e trocar de estratégia quando a situação muda. A pesquisa separa três funções centrais. Elas têm relação com a inteligência — mas só em parte, e a parte que tem relação não é a que a maioria das pessoas imagina.

As três funções executivas centrais

O modelo que praticamente toda a pesquisa atual usa vem de um estudo publicado em 2000 por Akira Miyake e colegas. Eles aplicaram uma bateria de tarefas simples a 137 participantes e usaram análise de variáveis latentes para perguntar se as funções eram mesmo distintas. A resposta: são moderadamente correlacionadas, mas claramente separáveis.

Função centralO que fazNo dia a dia
Memória de trabalhoManter a informação na cabeça e atualizá-laGuardar uma soma enquanto alguém continua falando números
InibiçãoConter a resposta dominante e ignorar distraçõesNão dizer a primeira coisa que vem à cabeça
Flexibilidade cognitivaTrocar de regra, de tarefa ou de perspectivaLargar um caminho que não está funcionando

Adele Diamond, em 2013, usa as mesmas três e deixa explícita a relação com todo o resto: a partir delas se constroem as funções executivas de ordem superior, como raciocínio, resolução de problemas e planejamento. Planejar não é uma quarta função ao lado das outras — é o que as três fazem juntas.

São três, sete ou doze?

Aqui as fontes populares e a literatura científica discordam em silêncio. Listas de sete, oito ou doze “habilidades executivas” enumeram comportamentos observáveis — planejamento, organização, iniciar tarefa, gestão do tempo, controle emocional —, que é exatamente do que um professor ou um clínico precisa falar. O modelo de três enumera os processos subjacentes que a análise estatística consegue separar. São respostas a perguntas diferentes.

Uma regra prática: o número de funções executivas que uma fonte cita diz para que essa fonte serve. Três significa que ela está descrevendo o modelo de pesquisa. Sete ou doze, que está descrevendo comportamento.

Funções executivas e QI

Esta é a pergunta que um site sobre inteligência deveria responder direito, porque a resposta honesta é mais interessante do que “sim” ou “não”.

Em 2006, Naomi Friedman e colegas testaram o modelo de três fatores contra medidas de inteligência: fluida, cristalizada e QI da escala Wechsler. O título do artigo já entrega o resultado — “Nem todas as funções executivas estão relacionadas à inteligência”:

  • A memória de trabalho teve correlação alta com as medidas de inteligência e continuou fortemente relacionada mesmo nos modelos que controlavam a correlação entre as três funções.
  • A inibição, não.
  • A flexibilidade cognitiva, não. Nesses modelos, a relação das duas com inteligência foi pequena e não significativa.

Em português claro: um teste de QI se apoia bastante na única função executiva que trata de segurar e manipular informação, e quase não toca nas duas que tratam de autocontrole e flexibilidade. É por isso que alguém pode ser genuinamente rápido e ainda assim perder prazos. A mesma lacuna aparece no pensamento crítico e explica por que vieses cognitivos atingem pessoas capazes tanto quanto as demais.

Pessoas com altas habilidades têm dificuldade executiva?

Podem ter, e a pesquisa acima explica por quê. Se inibição e flexibilidade têm pouca relação com a inteligência medida, então uma pontuação alta num teste de raciocínio quase não carrega informação sobre elas. Alguém pode estar entre os melhores num teste e ainda achar difícil começar uma tarefa ou abandonar um plano — não por contradição, mas porque o teste nunca mediu isso. O perfil específico de quem tem altas habilidades junto com um transtorno de aprendizagem ou de atenção é outro assunto, tratado em dupla excepcionalidade.

O que isso prevê na vida adulta

O estudo de Dunedin acompanhou 1.000 crianças na Nova Zelândia do nascimento aos 32 anos. Terrie Moffitt e colegas relataram em 2011 que o autocontrole na infância previu saúde física, dependência de substâncias, finanças pessoais e envolvimento com crime na vida adulta — em gradiente, não por limiar. O detalhe que interessa aqui é que os autores afirmam que esses efeitos puderam ser separados da inteligência e da classe social das crianças; e uma segunda amostra, separada, de 500 pares de irmãos, mostrou o mesmo padrão. Duas ressalvas: autocontrole é uma parte das funções executivas, não o todo, e um gradiente populacional não é uma previsão sobre uma criança específica.

Treino funciona?

Em parte. A meta-análise de 2016 de Melby-Lervåg, Redick e Hulme reuniu 87 publicações e 145 comparações experimentais. O treino computadorizado de memória de trabalho melhora de forma confiável as tarefas de memória de trabalho — e, contra um grupo de controle ativo, não houve evidência convincente de melhora confiável em habilidade não verbal, verbal, leitura ou aritmética. Um detalhe torna o resultado difícil de contestar: quanto cada participante melhorou na tarefa treinada não teve relação com quanto melhorou em qualquer outra coisa. O que a evidência mais ampla mostra está em como aumentar o QI.

Dificuldades executivas, TDAH e autismo

Dificuldade com funções executivas é comum, não é medida de inteligência nem de esforço e não é, por si só, um diagnóstico. Ela é descrita como característica de várias condições — TDAH e autismo são as mais discutidas — e também varia com cansaço, estresse, doença, luto e idade. Como as três componentes são separáveis, a dificuldade costuma ser desigual, e não global.

A avaliação em contexto clínico ou escolar é feita por um profissional qualificado, combinando testes padronizados, entrevista e informação sobre o dia a dia da pessoa — não por um teste on-line e não por uma lista de sintomas. Se a dúvida for sobre você ou sobre alguém próximo, um médico, um psicólogo ou a escola são o ponto de partida.

Escopo

Esta página é informativa e resume pesquisa publicada; não é avaliação psicológica nem médica de ninguém. Nosso teste de QI mede desempenho em raciocínio: ele não mede funções executivas e não detecta, rastreia nem descarta qualquer condição. O que uma pontuação de QI cobre está em como funcionam os testes de QI.

A IQ Revealed não é afiliada, endossada ou ligada à Pearson (editora das escalas Wechsler), aos editores do Teste Wisconsin de Classificação de Cartas, ao Center on the Developing Child da Universidade Harvard, ao estudo de Dunedin ou a qualquer universidade, revista ou pesquisador citado nesta página. Nomes de testes são marcas de seus titulares e aparecem apenas para descrevê-los.

Perguntas frequentes sobre funções executivas

O que são funções executivas?

São os processos mentais de controle que você usa quando uma tarefa não pode funcionar no piloto automático: manter uma informação na cabeça enquanto trabalha com ela, segurar uma resposta automática e mudar de estratégia quando a situação muda. A revisão de Adele Diamond (Annual Review of Psychology, 2013) chama essas três de funções executivas centrais e diz que habilidades mais complexas — raciocinar, resolver problemas, planejar — são construídas a partir delas.

Quais são as três funções executivas centrais?

Memória de trabalho (manter e atualizar informação), inibição (segurar uma resposta dominante ou automática) e flexibilidade cognitiva (trocar de regra, de tarefa ou de ponto de vista). O modelo vem de um estudo de Akira Miyake e colegas de 2000, com 137 participantes, que mostrou que as três são moderadamente correlacionadas entre si mas claramente separáveis.

Função executiva é a mesma coisa que inteligência?

Não, e a pesquisa é incomumente clara sobre qual parte se sobrepõe. Um estudo de Naomi Friedman e colegas de 2006 se chama literalmente “Nem todas as funções executivas estão relacionadas à inteligência”. A atualização da memória de trabalho teve correlação alta com inteligência fluida, cristalizada e QI Wechsler; inibição e flexibilidade, não — e em modelos que controlavam as correlações entre as três, a relação delas com inteligência ficou pequena e não significativa.

Dá para treinar funções executivas?

Em parte, e menos do que os aplicativos sugerem. Uma meta-análise de 2016 reuniu 87 publicações e 145 comparações experimentais: o treino computadorizado de memória de trabalho melhora de forma confiável as tarefas parecidas com as treinadas, mas não houve evidência convincente de transferência para habilidade verbal, não verbal, leitura ou aritmética quando comparado a um grupo de controle ativo.

Com que idade as funções executivas terminam de se desenvolver?

Não há uma idade única. A revisão de John Best e Patricia Miller, na Child Development, relata que as funções executivas surgem nos primeiros anos de vida e continuam a se fortalecer de forma significativa ao longo da infância e da adolescência, com as três componentes seguindo trajetórias um pouco diferentes. A afirmação de que tudo se completa aos 25 anos é bem mais precisa do que a literatura sustenta.

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